Pesquisa internacional liderada pela UFSCar propõe estratégia sustentável para descontaminar solos agrícolas
Estudo combina carvão vegetal, plantas e microrganismos para enfrentar resíduos do herbicida atrazina
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Fonte: Júnior Knoff / IFRS
Uma estratégia sustentável que reúne carvão vegetal, plantas e microrganismos pode contribuir para descontaminar solos afetados pela atrazina, herbicida amplamente utilizado na agricultura brasileira. A proposta é apresentada em estudo desenvolvido com participação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)e publicado recentemente no periódico científico internacional Discover Plants (Editora Springer-Nature), uma das mais prestigiadas editoras científicas do mundo.O trabalho tem como primeiro autor Kauan Rodrigo Costa Maligeski, estudante do curso de Engenharia Agronômica do Câmpus Lagoa do Sino da UFSCar. A atrazina é utilizada principalmente no cultivo do milho e cana-de-açúcar para o controle de plantas daninhas. Seu uso em demasia pode levar à presença de resíduos no solo e à contaminação de águas superficiais e subterrâneas.Diante desse cenário, os pesquisadores propõem uma estratégia integrada de remediação baseada em três componentes: biochar, um material rico em carbono obtido pela transformação térmica de resíduos orgânicos; o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis L.); e bactérias do gênero Pseudomonas. A hipótese é que a atuação combinada dos três componentes possa ser mais eficiente do que seu emprego isolado.As evidências reunidas no artigo indicam que essa interação tem potencial para favorecer a descontaminação e, simultaneamente, melhorar características importantes do solo, como retenção de água, disponibilidade de nutrientes e atividade microbiana.Cada um deles desempenharia uma função complementar. Devido à sua estrutura porosa, o biochar é capaz de adsorver moléculas de atrazina, reduzindo sua mobilidade e disponibilidade imediata no ambiente. O material também pode melhorar propriedades do solo, como a retenção de água e nutrientes, e oferecer microambientes favoráveis à colonização por microrganismos.O feijão-de-porco, por sua vez, apresenta crescimento rápido e sistema radicular profundo e ramificado. Suas raízes liberam açúcares, ácidos orgânicos e aminoácidos que podem servir como fontes de carbono e energia para os microrganismos presentes na região próxima às raízes, a chamada rizosfera. Entre esses estão bactérias do gênero Pseudomonas, capazes de atuar na degradação de contaminantes.As bactérias completam a estratégia proposta. Algumas Pseudomonas possuem vias enzimáticas capazes de transformar a atrazina progressivamente até sua mineralização em produtos como dióxido de carbono (CO2) e amônio (NH4+). Assim, enquanto o biochar regula a disponibilidade do contaminante e favorece a colonização microbiana, a planta estimula a atividade dos microrganismos e as bactérias atuam diretamente na degradação do herbicida.Apesar do potencial, os pesquisadores ressaltam que ainda existem desafios para levar a proposta às condições reais de produção agrícola. Por isso, um dos próximos passos é avançar na validação experimental da estratégia.O artigo "Combined application between remediation and bioremediation enhances soil xenobiotics decontamination" é assinado por Kauan Maligeski, Rômulo Carleial e Daniel Baron e pode ser acessado na íntegra em [https://link.springer.com/article/10.1007/s44372-026-00898-1].